terça-feira, 13 de agosto de 2013

SOBRE SER MULHER

                       Ontem, sentado devorando uma imensa fatia de bolo de chocolate que minha irmã não pode comer por ter enxaqueca crônica, patologia que ocorre predominantemente em mulheres, percebi o quanto sou privilegiado na condição de ser do sexo masculino. É mais liberdade pra trabalhar, mais força física, menos hormônios zoando o corpo todo mês, menos preconceito nas manifestações da própria sexualidade (salvo se eu tiver um comportamento homoerótico...), mais aceitação no mercado literário, mais poder econômico e político, muito mais coisas, afinal de contas a sociedade inteira foi construída por e para nós homens. 
                        Só que não.
                        Inevitavelmente, no decorrer da minha vida venho aprendendo a ser mulher. Não como uma necessidade transexual de querer um corpo que não tenho, nem como uma vaidade, nem mesmo como uma falta de virilidade.Mas como um modo de perceber e viver a vida. Paulo Freire costumava falar "nós educadoras, isso mesmo, nós educadoras, incluindo todos os homens nessa palavra... Ah, aposto que os homens mais preocupados com a imagem de sua virilidade se sentiram incomodados com a brincadeira, aposto que não se reconheceram nem se sentiram incluídos com o 'nós educadoras'. Puderam sentir na pele um pouco do que as mulheres sentem todos os dias.'  Quando o macho está estruturando até a linguagem, o machismo se torna uma força que estrutura a sociedade e também o inconsciente coletivo. Como está em praticamente todos os lugares, dentro de casa, na linguagem, nas estruturas sociais, o machismo é reproduzido e ensinado inclusive pelas mulheres. E... bem, é aí que eu venho aprendendo o que é ser mulher. É claro que jamais sentirei todas as aflições pelas quais elas passam, minha condição biológica não permite isso. Mas a psicológica sim. 
                       A clássica frase da Beauvoir já dizia que "não se nasce mulher, se faz mulher..." e é por isso que um travesti é sim senhor, uma mulher, já que ele se construiu como uma mulher, apesar de não ter o aparato biológico. E é através de certas violências machistas cometidas pelas mulheres que podemos sentir na pele um pouco (e eu quase morro com apenas um pouco) da dor que elas sentem.  
                       Sou violentado sutilmente todos os dias. Talvez por ter sido criado apenas por mulheres, eu sinta as coisas de um modo um pouco diferente dos outros caras, não sei, sei que existe muita dor... Mas só o que eu escuto é que é um melodrama da minha parte, que é claro que eu criei tudo com a minha cabeça. Que a agressora está apenas vivendo a própria vida e que eu que criei as agressões (mas deveria ter fotografado o corpo cheio de hematomas!). Não é nem um pouco fácil falar ou escrever sobre isso, e só o faço por uma necessidade de tirar esses sentimentos ruins de dentro de mim. Não é uma indireta e nem uma acusação a ninguém, apenas uma reflexão e um agradecimento. Pois isso tem me ensinado o que é a violência sutil, a violência invisível. Eu simplesmente não tenho mais coragem, por exemplo, de dizer pra minha irmã que a roupa dela está curta (sugerindo que ela seria responsável por qualquer violência que lhe acometam, a culpabilizando...)     
                     A cada vez que alguém comenta que sou eu quem está "criando mágoas", quando uma pessoa com quem tive uma relação amorosa trata até o cachorro da esquina com o maior amor e me elege como um alvo pra ignorar, ridicularizar, agredir, provocar, me sinto exatamente como uma mulher que foi estuprada mas tem que ouvir "ninguém mandou andar por aí com essa roupa de piriguete!" Sei que nesse meu caso ninguém pode fazer nada para evitar a violência, porque não é visível, eu precisaria de que a  própria pessoa despertasse para a violência que vem cometendo...Tudo é muito didático e estudar o feminismo me deu essa clareza de que eu venho sendo violentado, com atitutes machistas e ao mesmo tempo sutis, ironicamente, por quem começou a me ensinar o feminismo, mas que na realidade não o vive...
                Por mim não se pode fazer muito. Gostei de ter conhecido o conceito da DESCARTABILIDADE MASCULINA, que é exatamente o que vem acontecendo comigo. Como há uma inversão de papéis e uma mulher me agride com atitudes machistas, isso passa pelo ridículo, passa despercebido e ganha um status de invisibilidade. Como assim eu, um macho, sou agredido, quando a grande oprimida é ela, mulher? Acontece que os valores e também as práticas opressoras se invertem ao longo da História. Só que a sociedade de um modo geral é meio lentinha pra perceber certas mudanças... A emancipação da mulher ainda é algo super recente. Elas (nós!) ainda precisam conquistar muitas coisas, então quem é que vai atentar para a violência que é cometida contra os homens? Mas enfim, podemos pelo menos fazer algo pelas mulheres que sofrem violência de maneira mais visível, através das campanhas de conscientização contra a violência deflagrada, através das leis de Proteção à Mulher... Todos os dias busco contribuir um pouco na conquista dos direitos delas, pois sou pai, irmão e filho, portanto conquistar os direitos e liberdades delas também é uma luta minha. 
                Mas uma mudança de mentalidade coletiva não se dá do dia pra noite. Sei que as agressões não vão parar tão cedo, até porque não são facéis de se identificar....Mas tento articular um pouco das emoções com as palavras pra ver se a dor vai se dissipando...
                E apesar do pouco que contei, das fortes emoções que tento aprender a controlar, ainda assim eu não sei o que é carregar e gerir uma criança, que vai sugar você pelo resto da vida. Não sei o que é ser sempre, sempre culpabilizada pelo que acontece, não sei o que é viver à sombra de alguém, seja pai ou marido, ou patrão...Não sei o que é ter meu sexo condenado, reprimido, temido, amado e odiado... Não sei o que é trabalhar até esgotar todas as forças e ainda assim não ter nenhum reconhecimento.
               É, não sei... porque apesar de toda minha dor, ainda posso me levantar e vir trabalhar. Ainda posso construir, posso erguer a cabeça e claro, teoricamente quanto mais mulheres eu começar a pegar melhor pra minha imagem social enquanto minha ex vai sempre gerar mal estar nas suas aventuras... E é por essa diferença histórica e biológica, que acredito que nós homens temos que também buscar meios, em sociedade, de compensar essas vantagens que temos sobre as mulheres. Principalmente as mais vulneráveis, mães solteiras, negras... Temos que pensar políticas públicas que garantam uma vida digna a elas! E acima de tudo, precisamos fazer muita educação, nem que seja preciso escancarar certos aspectos desagradáveis da vida, como fiz, para ilustrar uma situação de opressão, para que no futuro não exista mais nenhum tipo de violência ou opressão. Nem sutil nem escancarada. 


VIVA AS MULHERES!


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