segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

RUBRA LUZ

As luzes da noite me atraem mas embaçam minha visão e meu movimento. Vermelho, vermelho-amarelado. Vermelho, amarelo, verde, um farol e um cruzamento pequeno mas com centenas de carros. Os carros irritam. Sempre saio de casa todo contente e sou barrado por um fila de carros, em um lugar pequeno, se pelo menos fosse cidade grande onde esse tipo de coisa é comum...

Mas a noite, algo nessas luzes vermelhas me atraem e não sei exatemente o que é. Visto meu casaco grande, marron, com um detalhe xadrez interno e vários bolsos com os quais me divirto. Acendo um cigarro e dou um trago enquanto olho se tem espaço entre os carros pra atravessar pro outro lado. O outro lado tem calçada e árvores e é mais fácil caminhar.

Essa calçada central é a Av. Leite Castro. É bom caminhar lá, dá pra andar a passos largos. Noutro dia desses um amigo comentou que tem vontade de abrir uma grife com o nome Milk of Kastro, só pra tirar uma onda com o nome dúbio do lugar.

- É Lady Castro?
- Leite de Castro ou Leite & Castro?

Até de Emília de Castro já vi chamarem a pobre avenida.

Preciso aprender a dirigir, mas não sei se fazer isso vai aumentar ou diminuir minha irritação com os carros. E como me irritam!

Na noite das luzes vermelhas, continuo caminhando. Vou pelo canto da calçada, vendo os carros passarem em um sentido e as pessoas em outro. Todo tipo de pessoa. Mendigos. Pais e mães de família. Gays coloridos. Universitários de barba por fazer e chinelos. Garotas de academia. Trabalhadores se divertindo depois do expediente. Nativos e turistas. Gente, gente, gente... Passo por elas a passos largos, no canto da calçada, cigarro as vezes aceso. Olho para algumas e busco alguma coisa que me atraia. Geralmente não encontro nada. Aprendi que de perto é todo mundo louco, então cansei de buscar, buscar pessoas. Busco só a mim. *(E nisso reside uma esperança secreta de encontrar uma companheira definitiva e certa).

Cigarro aceso, depois da calçada, olho para as pontes, uma imitação de cidades européias e mergulho na escuridão da rua e as vezes na minha própria.  Escuridão é caixinha de surpresas. As vezes encontro demônios, as vezes anjos. As vezes me encontro comigo mesmo e percebo o quanto oscilo entre esses seres que encontro. Oscilo entre demônios e anjos e percebo que sou algo exatemente no meio dessas duas manifestações. Ora essa, quer dizer que nada mais sou além de um ser humano! Natureza divina e mundana perambulando por aí.

Ser humano. O que exatemente define isso? Atitudes? Profissão? Relacionamentos? Córtex desenvolvido e polegar opositor? Espiritualidade? Provavelmente uma mistura de tudo isso.

Continuo caminhando, agora no Centro, observando casarões antigos, as luzes, agora mais fortes e as igrejas. Bom saber que sou apenas um humano. Olho para as igrejas. Em algumas dessas noites de luzes vermelhas, solidão e cigarros gosto de caminhar até as escadarias de uma igreja de se chama Nossa Senhora do Pilar. É uma igreja de pedra, Barroca e os católicos explicam que Nossa Senhora é do Pilar, porque Pilares são nossas emoções boas, nossos vinculos afetivos mais fortes e nossa família. Costumo sentar nas escadas dessa igreja sempre que quero ter um papo sério com Deus. Sozinho, respiro me concentro, as vezes choro, e converso muito com ele. Peço força. Sabedoria. Calma, tranquilidade, auto-confiança, amor, essas coisas.

"Eu ainda vou ser mais esperto. Mais forte, viril, presente. Mais sorridente, menos melancólico. Mais prático e menos reclamador. Mais sábio nas minhas relações íntimas, mais doador e mais receptor de algo tão sublime e tão difícil: amor!", costumo falar com o Grandão quando estou nessas conversas na escadaria do Pilar. E em várias dessas noites, após essas conversas, me benzo, as vezes fumo outro cigarro e vou para casa dormir, pronto para o dia seguinte.

As luzes vermelhas da noite me atraem e não sei exatemente o porquê.

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